segunda-feira, 5 de abril de 2010

Capítulo 1

SIMPLES COMO AMOR

Em versão impressa (livro) e digital (ebook)!
Para garantir o seu, basta acessar:

Comprar versão impressa (livro):

Comprar versão Digital (ebook): 



Um Surpreendente Amanhecer

Através de um pequeno, quase ínfimo vão das cortinas mal cerradas, um raio de sol se esgueirou e foi bater justamente no rosto de Malu. Aos poucos, com muita dificuldade, ela foi abrindo os olhos.

Espelhos da alma... Que doíam e rodavam, profetizando a ressaca física e moral que teria que enfrentar.

Não fazia a menor idéia de onde estava. Só sabia que... Tinha um braço desconhecido em volta da cintura.

Olhou ao redor, ou melhor, diretamente para o espelho no teto. E teve de uma só vez a resposta para todas as perguntas.

Cautelosamente, para não acordar a mulher de cabelos curtinhos que dormia abraçada a ela, foi se desvencilhando aos poucos. A outra se virou, resmungando. Malu sentou na cama e pressionou a mente. Precisava se lembrar.

Os flashes — incrível como depois de toda amnésia alcoólica as lembranças sempre vêm aos poucos, cortadas, como cenas mal editadas de um filme... — pipocaram.

Noite anterior. Mesa da boate. A tal mulher, extremamente masculina, exatamente o tipo que Malu detestava, fumando um... Charuto? Uma atração repulsiva tomando conta de Malu, enquanto beijava ardentemente a mulher do charuto na boate. Na verdade, um sentimento de prazer e desejo — como nunca havia sentido antes — a dominara. E por fim, no quarto do motel, a mulher empurrando Malu para a cama.

Malu caindo de costas, deitada, e a outra se atirando em cima dela com uma expressão absolutamente voraz.

A simples lembrança fez Malu se arrepiar inteira. Porque em toda a experiência que tinha com mulheres — que realmente não era muita, mas... — nunca, jamais, havia cogitado agir daquele jeito.

Em primeiro lugar, se lançar assim, do nada, nos braços de uma desconhecida completa. Em segundo, permitir — quase morrendo de tanto prazer — que a dominassem, a sujeitassem de uma forma tão...

Suspirou, exasperada, afastando o pensamento. Não adiantava culpar a bebedeira. Tinha adorado o jeito da outra, que não deixava margem para pudores nem resistências. Tinha se rendido, mergulhado numa entrega total e derradeira.

Passou a mão nos cabelos, tentando não se desesperar por completo. Olhou em volta novamente. As roupas das duas espalhadas, misturadas pelo chão. Irônico reflexo do que havia acontecido.

Em cima da mesinha de cabeceira um cinzeiro, com vários charutos apagados. A noite havia sido longa. E incrível. Não podia negar. Pelo pouco que conseguia se lembrar, e... Pelo corpo totalmente dolorido...

Saiu sem deixar rastros. Pegando as roupas espalhadas e se vestindo o mais rápido possível.

* * * *

A corrida de táxi pareceu interminável. Abriu a porta do apartamento e deu de cara com Kiko sentado, ainda de pijaminha, tomando café tranquilamente. Sem deixar de dar um risinho muito debochado, o amigo perguntou:

— E aí? Como foi com a charutão?

— Grande amigo você, hein?

Entre uma mordida no pão e um gole na xícara de café, veio a resposta displicente:

— Ué, a culpa é minha?

Malu passou a mão nos cabelos uma, duas, três vezes. Bufou, respirou fundo, o que só fez Kiko dar mais um risinho. Malu não aguentou:

— Caramba, bicha! Como você me deixou sair da boate com aquela mulher? Não acredito!

— Ah, minha filha... O que você queria que eu fizesse?

— Me impedir, me arrastar de lá... Sei lá! Se a Laura ficar sabendo... Merda!

Não conseguia nem imaginar qual seria a reação da ex-mulher. Malu havia passado os últimos meses tentando reconquistar Laura. Não se conformava com a separação. Não aceitava jogar fora os cinco anos em que haviam estado juntas assim, sem mais nem menos.

Sim, porque na verdade, não existiam motivos. Aparentemente, tudo estava muito bem, até o fatídico dia, que Malu jamais esqueceria. 


Três meses atrás...

Era uma sexta-feira. Estavam em casa, Laura cozinhando, enquanto Malu auxiliava — era péssima na cozinha — em coisas simples como cortar cebolas, pegar uma colher ou panela, etc... Como sempre faziam. Conversando sobre assuntos absolutamente banais e irrelevantes, quando de repente — num tempo que para Malu pareceu surreal, surpreendente — Laura simplesmente disse:

— Quero me separar de você.

Sem nem levantar os olhos do que estava fazendo.

Malu recuou inconscientemente. Só percebendo quando as costas bateram na geladeira. E gaguejou:

— Quê? Eu... acho que não entendi direito...

Ainda sem olhar para Malu, Laura respondeu:

— Nós duas... Não tá mais dando certo.

Malu passou da catatonia para o desespero:

— Como assim? Você me diz isso assim, do nada, desse jeito? Que tá acontecendo, Laura? Você tá me traindo? Você tem alguém?

Finalmente, Laura se virou. Ficaram frente a frente. Olhou para Malu profundamente. Os olhos muito tristes e sinceros:

— Não tenho ninguém. Só acho que viramos colegas de quarto. Não somos mais amantes, somos amigas. E um casamento não é isso.

Malu balançou a cabeça negativamente, numa rejeição muda do que a outra estava dizendo:

— Depois de cinco anos de casamento, você queria o quê? Que fosse como no começo? É claro que as coisas esfriam um pouco...

Incrivelmente, Laura riu. Antes de dizer calmamente:

— Esfriar é uma coisa. Não existir, é outra.

Aí Malu não agüentou. Aproximou-se de Laura, mas não a tocou:

— Como não existe? Vai dizer que não sentimos nada uma pela outra?

Laura apenas respondeu, com um sorriso irônico e triste:

— Nós somos e sempre vamos ser muito amigas.

— Amigas? Amigas? Você é minha mulher, Laura!

A distância física entre elas, que permanecia mesmo num momento crucial daqueles, fez Laura explodir:

— Sou? Mesmo? Você ainda sente algum tesão por mim? Seja sincera... Faz meses que não fazemos sexo.

— Tenho trabalhado muito, ando cansada...
Laura voltou a rir. Sacudiu a cabeça, em total discordância às desculpas da companheira:

— Malu, chega... Acabou... Nós duas sabemos... Impossível a gente continuar se enganando, fingindo que tá tudo bem.

Finalmente, de um jeito calmo, suave e meigo, Malu a abraçou. E sussurrou no ouvido dela:

— Não é verdade... Nossa relação anda um pouco desgastada, é só isso... É sei lá, a rotina, mas... Nada que não se resolva...

Os olhos de Laura faiscaram. Com uma raiva intensa, desafiou:

— Ah, é? Então me beija! Me joga naquela cama, agora! Me prova que eu tô errada, e você certa... Me mostra, Maria Luiza!

Malu colou a boca na de Laura quase com fúria. Fechou os olhos, e tentou... Mas infelizmente, naquele momento — não sabia por que — não conseguiu sentir nada por Laura. Desejo nenhum.

Entreabriu os lábios, a língua de Laura entrou voraz, tentando despertar aquilo que, quando tinham se conhecido, era imediato, mas que naquele momento parecia impossível.

Malu percorreu a pele de Laura por baixo da blusa, as mãos encontrando os seios, sem empolgação nenhuma.

Laura interrompeu o beijo, e se afastou.

Malu ainda insistiu:

— Por favor, Laura... Você sabe que...

Mas era evidente demais, inegável demais a total falta de química. Como se as peles não se dissessem mais nada. 


Laura apenas disse:

— O que eu sei é que nós duas merecemos um casamento de verdade. Não adianta, falar não vai mudar nada.

Simples assim. Direto e rápido encerramento de todos os planos e certezas de Malu. Há três meses. E início de um assustador e doloroso recomeço. Sob os olhares reprovadores e penalizados da família. Teve que ouvir a mãe dizendo, com os olhos cheios de lágrimas:

— Minha filha... Eu te avisei... Eu te disse que essa vida que você escolheu é muito solitária... Muito triste... Você nunca vai ter uma família de verdade...

Em compensação, Kiko a tinha recebido de braços abertos para dividirem o apartamento de dois quartos:

— Vamos nos divertir muito, amiga! Vou te colocar pra cima! Tem um mundo de mulheres lindas te esperando, você vai ver! Vai esquecer a Laura rapidinho!

Mas Malu não havia esquecido. Nem desistido. Telefonava para Laura quase todos os dias. Sentia muita falta dela. Das conversas, da companhia, dos filmes que assistiam abraçadinhas e das noites em que dormiam de conchinha, embaladas, aquecidas uma no calor da outra. Os dias pareciam tão gelados e vazios quanto a cama onde rolava até altas horas da madrugada, sem conseguir pegar no sono.

E assim, os três primeiros meses se passaram, num sofrimento passivo, deprimido, que não a deixava.

Kiko insistia em convidar Malu para sair. Todos os finais de semana. De quinta a domingo. Mas Malu nunca ia. Preferia ficar sentada no sofá da sala, o controle da TV zapeando incessantemente os canais.

Até a véspera, quando... Tinha telefonado para Laura e a ex não tinha atendido... Na mesma hora, a cabeça de Malu começou a criar milhares de historinhas. Nenhuma boa. Todas terminavam com Laura e outra... Então, entrou no Orkut de Laura e teve a confirmação de seus piores pesadelos: vários comentários, íntimos demais, calorosos demais, de uma tal de Bia... Uma mulher que Malu simplesmente desconhecia...

Resolveu sair com Kiko. De pura raiva. Enquanto se arrumava, começou a beber com o amigo. Quando chegou à boate, a cabeça rodava. Um carrossel de pensamentos, lembranças e mágoas...

Tonta de bebida, de empolgação e de uma vontade inconfessável de libertação que há muito não sentia, nem pensou em resistir. Rendeu-se à inevitabilidade instintiva dos sentidos.

Será que por isso havia beijado com uma voracidade perturbadora uma desconhecida no meio da boate? Ou por se sentir rejeitada, espezinhada, largada por Laura, querendo que ela soubesse e sofresse? Infantil desejo de vingança, ou última cartada, baseada na crença de que as pessoas só dão valor ao que perdem?

Fosse o que fosse, era totalmente incoerente. Sem sentido, razão, nem explicação. Além do tesão insano, desmedido, incompreensível, que a outra — a mulher dos repulsivamente sedutores charutos cubanos — a tinha feito sentir.

— E então? - um Kiko muito curioso, com um sorriso malicioso no rosto, perguntou.

— Então o quê?

— Ué, como foi?

Malu lançou um olhar que seria fulminante para qualquer pessoa. Em se tratando de Kiko — que era talvez uma das pessoas mais sem semancol do mundo — não funcionou:

— Vai, amiga, conta...

Já sabendo que ele iria insistir até conseguir o que queria, Malu acabou dizendo:

— Contar o quê? Nós fomos pro motel, fizemos sexo, e só.

Kiko abriu um sorriso debochado, com uma das sobrancelhas levantadas:

— Você ficou com ela a noite toda... Não pode ter sido tão ruim...

Sem resposta... Foi assim que Malu ficou. Até porque ruim era exatamente o contrário do que havia sido. Mas não estava disposta a confessar isso para ninguém ainda. Nem para si mesma.

Kiko continuou olhando para a amiga como se pudesse ler dentro dela:

— Eu nunca te vi fazer uma coisa dessas, e nos conhecemos há o quê? Uns dez anos, pelo menos... Então, quer dizer que de algum jeito, a coisa bateu... Senão, você não teria ido com a charutão assim tão fácil, né?

Sim, tinha "batido" muito mais do que Malu gostaria. Atirou-se no sofá, passou a mão no rosto, deu um suspiro... A única resposta que teve, foi:

— Meu querido, se você estivesse há mais de nove meses sem sexo como eu, também não ia achar difícil...

Kiko sorriu mais ainda. Aproximou-se de Malu, com as mãos na cintura, olhando-a de cima a baixo, antes de dizer:

— Sei... Até parece... Isso nunca foi problema pra você antes... Malu, você foi virgem até os vinte um anos! E com tantas mulheres dando mole pra você, por que escolheu logo a charutão? Sim, porque foi você quem deu em cima dela.

Malu olhou interrogativamente para ele. Tentou se lembrar, mas só conseguiu uma careta de dor. A cabeça latejava impiedosamente. Apertou as têmporas, sem saber se o que o amigo dizia era verdade ou não...

Kiko sentou ao lado dela:

— Você não lembra?

Com um aceno envergonhado de cabeça, Malu respondeu que não. Kiko então informou:

— Não lembra de ter olhado acintosamente pra charutão, sorrindo, dando tanto mole que ela veio sentar na nossa mesa?

Malu apenas respondeu absolutamente surpresa:

— Não.

Kiko tapou a boca com uma das mãos. Depois a colocou na base do pescoço, segurando o colar que usava, sem conseguir disfarçar o quanto estava perplexo:

— Amiga, tô passado...

Depois de menos de um segundo de silêncio, ele soltou:

— Eu nunca te vi tão segura do que tava fazendo... Não me diga que era a bebida falando por você...

Malu abaixou a cabeça e tapou os olhos com as mãos. Não era nem um pouco como ele estava dizendo. Estava bêbada, não lembrava direito, mas... No fundo sabia que tinha seguido o mais profundo e inconfessável desejo. A bebida não tinha culpa. Apenas tinha ajudado a fluir.

Kiko interrompeu os pensamentos dela, com uma ansiedade evidente:

— Quer saber o resto? Ou prefere que eu pare por aqui?

Por um momento, Malu tentou evitar a curiosidade latente, insistente... Sem conseguir. Precisava saber o que tinha acontecido. Para ver se conseguia compreender o porquê...

— Conta. Eu quero saber.

Depois de um pigarro seco, limpando a garganta como se fosse cantar uma ópera, o amigo começou, com um prazer quase sádico:

— Bom, assim que a charutão chegou na nossa mesa, você a agarrou... Nem deixou a mulher dizer o nome, antes disso, já estava com a boca colada na dela, beijando loucamente.

Kiko parou, olhando fixamente para a amiga, como quem pede autorização para continuar. Malu entendeu, e pediu:

— Continua.

Com um suspiro, dramático como sempre, Kiko completou:

— Bom... Pra encurtar a história... Você agarrou a charutão, sentou no colo dela, e quase trepou com ela ali mesmo. Pensei até que vocês fossem ser expulsas... E iam ser... Se a charutão não tivesse te levado embora.

— Bicha, não acredito que você me deixou dar um show desses...

— Eu tentei te impedir... Juro... Mas você parecia uma gata no cio, Malu...

Malu voltou a abaixar a cabeça, e a esconder o rosto entre as mãos:

— Que vergonha...

Kiko riu, achando a reação dela engraçadíssima. Tirou delicadamente as mãos da amiga do rosto, a fez levantar a cabeça, e a olhou bem nos olhos, incentivando, ao dizer:

— Vergonha por quê? Que bobagem... Você é uma mulher livre e desimpedida, amiga... Tem mais é que aproveitar mesmo. E pelo pouco que eu vi ontem, com certeza o negócio foi bom...

E riu novamente.

Malu suspirou profundamente, exasperada ao extremo, antes de dizer:

— Sinceramente? Não quero mais falar sobre isso... Nem pensar nisso...

Com um olhar irônico, malicioso mesmo, Kiko respondeu:

— Acho que você não vai ter escolha...

Malu arregalou os olhos:

— Como assim?

O risinho de Kiko só aumentou:

— Já se olhou no espelho?

Para dizer a verdade, Malu até tinha olhado no espelho... No teto do motel. Onde tinha olhado para tudo, menos para si mesma...

Caminhou até o banheiro lentamente. Com medo do que já sabia. Parou em frente ao espelho, e viu... Dos dois lados do pescoço, as indisfarçáveis e inconfundíveis marcas roxas.

As lembranças vieram novamente, imagens muito pouco nítidas, em contraste com as sensações incrivelmente vívidas que a atingiam. De um jeito excitante, incontrolável, irresistível — que a fez sentir a pele inteira arder novamente, num delicioso arrepio que começava no ventre e se espalhava úmido entre as pernas...

Com uma expressão profundamente perdida, sem entender nem conseguir explicar o que sentia, Malu voltou a esconder o rosto entre as mãos, com um gemido de puro desespero.

SIMPLES COMO AMOR
Em versão impressa (livro) e digital (ebook)!
Para garantir o seu, basta acessar:

Comprar versão impressa (livro):

Comprar versão Digital (ebook): 

7 comentários:

  1. diedra não conhecia seu trabalho ate ler esse belissimo exemplar vc e magnifica adorei seu romance otima escritora vc e brilhante
    mil bjs

    ResponderExcluir
  2. Oi Mary!
    Blz?
    Brigadíssimo, linda!
    Estou postando um novo no blog, REGRA DE TRÊS, dá uma olhadinha e me diz o que acha, please?
    BJ mega gigante!

    ResponderExcluir
  3. Muitooo bom! Envolvente e cativante.... daqueles que não conseguimos parar de ler... Parabéns pelo seu talento!

    ResponderExcluir
  4. Parabéns Diedra... Não conhecia o seu trabalho, mas estou amando esse romance, é cativante e envolvente, daqueles que não conseguimos parar de ler.... estou louca pera trminar esse e ler varios outros ... Beijooo

    ResponderExcluir
  5. Muitooo bom! Envolvente e cativante.... daqueles que não conseguimos parar de ler... Parabéns pelo seu talento!

    ResponderExcluir
  6. Oi Débora!
    Td bem, linda?
    Obrigadíssima, viu?
    Tem o link de todas as minhas histórias aqui neste blog, se vc estiver lendo no cel ou tablet é só acessar a "versão para web", ok?
    bjo suuuuuuuuuuper gigantesco!

    ResponderExcluir
  7. Nossa estou apaixonada por suas historias o simples fato de dar aquela sensação que da no estomago a cada capítulo tipo um desejo que nunca acabe é ao mesmo tempo querer saber o final é aquela sensação de quando termina é você pensa nossa essa é a melhor que alguém já leu e o pensamento se perguntando será que um dia vou ler uma coisa melhor que essa mais aí aparece Diedra Roiz com mais uma de suas histórias que envolve até a alma!!! Eu estou terminando o ensino médio e um dia espero ser uma boa escritora como você!!! Meu conto favorito e o primeiro que eu li e "Dez Coisas Que Eu Odeio Em Você!!!

    ResponderExcluir